Ceará passa de mil focos de incêndio no ano e agrava falta de alimento e água para animais

Ceará tem mais de mil focos de incêndio até outubro, e animais silvestres sofem escassez de alimento e água — Foto: TV Verdes Mares/Reprodução

“Todo dia estou indo levar água, caju, banana e mamão para eles.” O relato é do comerciante Edval Soares, que nos últimos dias passou a alimentar cerca de 50 macacos silvestres que fugiram do fogo que consumiu 500 hectares da Serra do Graiado, na zona rural de Várzea Alegre, no Ceará.


Além de devastar a mata nativa, o incêndio consumiu a fonte de alimentação de diversas espécies que habitam a localidade. Neste ano, até 8 de outubro, o Ceará sofreu 1.028 queimadas e incêndios, mais que o total do ano passado, o que agrava a situação dos animais.


O chefe da Divisão Técnico-Ambiental do Ibama no Ceará, Muller Holanda, explica que em meio a um incêndio florestal os animais têm poucas opções. Eles podem tentar se esconder ou se deslocar fugindo das chamas.


Nessa corrida pela sobrevivência muitos acabam morrendo, seja pelas chamas, pelo calor do fogo ou por inalação de fumaça. Os que conseguem fugir do perímetro das queimadas inicia uma nova batalha: a busca por alimento e água.





“Eles [macacos] estão passando fome”, lamenta Edval. Ele e outros três moradores se revezam na missão de todos os dias, pela manhã e tarde, subirem a serra com água e alimento para os animais. “Aqui tem mais de 50, mas muitos deles não conseguiram escapar das chamas. E tem outras espécies que também morreram queimadas”, acrescenta Soares.


Muller Holanda justifica a percepção do comerciante explicando que “alguns animais percebem o fogo com mais facilidade pelo olfato, e acabam escapando para regiões onde o fogo ainda não se alastrou. Contudo, as chamas podem causar a morte de animais de mobilidade mais limitada, além de comprometer a saúde pela inalação de gás carbônico, no caso de tamanduás e filhotes de espécies diversas”.


Nos oito primeiros dias de outubro, o Inpe já registrou 190 focos incêndios, índice mais de três vezes superior ao anotado em igual período do ano passado, quando foram contabilizados 59 focos.


Com o quantitativo desta semana, o Ceará ultrapassou a marca de mil focos ativos de queimadas em 2019. No mês passado, os números também foram robustos. Em 30 dias, o Instituto registrou 460 focos de incêndios, frente aos 429 verificados em setembro de 2018.


A tendência é de que o número de focos cresça ainda mais nos próximos meses. Para o meteorologista da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) Raul Fritz, as condições secas de solo e de vegetação, as baixas umidades relativas do ar, além das temperaturas altas e ventos frequentemente mais intensos colaboram para o avanço das queimadas nesta época.


“Neste período, é comum que tais focos tomem proporções maiores e evoluam para incêndio. Tempo mais seco e ventos fortes, associados à comum falta de chuvas no segundo semestre são condições propícias para o fogo se espalhar”, observa o pesquisador.
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