Merkel deixa o comando da Alemanha como a chanceler que venceu sucessivas crises




A eleição deste domingo na Alemanha marca o início da sucessão da chanceler Angela Merkel depois de 16 anos no comando do país — os quatro mandatos consecutivos fazem dela uma das líderes mais longevas da Europa contemporânea.

E isso com uma popularidade de dar inveja a boa parte dos governantes do mundo ocidental: no auge do combate à pandemia na Europa, em janeiro, o índice de satisfação do cidadão alemão com seu governo era de 75% — atualmente, está em 67%.

“Ela deixa o governo com o maior índice de popularidade de qualquer chanceler alemão”, comenta à CNN o embaixador brasileiro na Alemanha, Roberto Jaguaribe.

Hábil política, rígida quando necessário mas flexível para conseguir negociar, a governante conservou uma postura austera e, para os eleitores, autêntica, ou seja, não falseada por marqueteiros políticos. E isso explicaria parte de seu sucesso junto ao povo, que leu como gestos de sinceridade suas decisões à frente da nação.

Ao mesmo tempo, Merkel soube se apropriar de pautas de outros partidos e levá-las adiante, seja para o bem da governabilidade dentro da coalizão formada, seja por entender que era preciso reconhecer como legítimos os anseios da população alemã. Nesse sentido, Merkel executou um governo maior do que seu próprio partido, o centro-direitista União Democrata-Cristã (CDU, na sigla original).

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Armin Laschet, candidato da CDU a primeiro-ministro da AlemanhaCrédito: Michele Tantussi - 13.set.2021/Reuters
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Olaf Scholz, ministro das Finanças e vice-chanceler de Merkel desde 2018, é candidato pelo SPDCrédito: Michael Lucan/Wikipédia
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Annalena Baerbock, do Partido Verde, liderou as pesquisas no começo da campanhaCrédito: Reprodução/ABaerbock/Twitter






“Merkel é muito engajada na agenda verde. Não é uma questão natural de seu partido, mas ela trouxe para dentro, sem esvaziar o Partido Verde. O mesmo com o SPD [o Partido Social-Democrata, de centro-esquerda], da qual ela absorveu os temas de apelo social”, exemplifica Jaguaribe.

Um ponto que ilustra bem essa capacidade de adaptação de Merkel aos tempos é a sua posição quanto às fontes de energia. Quando assumiu o posto, em 2005, abandonou a política de transição energética, marcada pelo desligamento das usinas nucleares e de carvão, iniciada por seu antecessor Gerard Schröder. Em 2011, em um contexto pós-tragédia de Fukushima, no Japão, uma pressão parlamentar reativou o programa, aprovado mais tarde pela gestão Merkel.
Mediadora de crises

Esse tipo de habilidade política proporcionou a Merkel desempenhar um papel de liderança, muitas vezes transcendendo as próprias fronteiras alemãs, nas crises enfrentadas nesses 16 anos. E não foram poucas. Além do premente aquecimento global, a chanceler precisou lidar com temas como a crise financeira de 2007 e 2008, a crise do euro em 2009, o drama migratório — agravado sobretudo pelos refugiados em consequência da guerra sírio-libanesa —, a invasão russa da Ucrânia, o difícil divórcio britânico no episódio do Brexit e, desde o ano passado, a pandemia de covid-19.

“Uma marca do jeito Merkel de governar é a capacidade de adaptação, definida como negociação e modificação das próprias linhas políticas com vistas a atingir um meio termo, e de conciliação”, define à CNN o cientista político Leonardo Bandarra, pesquisador do German Institute for Global and Area Studies, em Hamburgo.

Claro que, como Bandarra lembra, isso não a livra de insatisfação. Mas a maioria vem daqueles que esperavam dela uma postura mais “dentro da caixinha” de sua legenda. “Interessante notar que parte das críticas ao seu modo de governar advém da parcela mais conservadora de seu próprio partido”, frisa.

CNN

 

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